Texto e fotos: Rosário Padilha
Conhecido historicamente pela sua cultura, o Rio Vermelho apresenta como principais atrativos a antiga colônia de pescadores, as baianas de acarajé, a residência do falecido escritor Jorge Amado e de sua esposa, também escritora Zélia Gattai, e os festejos da comunidade, em especial a festa de Iemanjá, comemorada anualmente. Entretanto, alunos do ensino fundamental da rede municipal de educação, residentes do bairro Rio Vermelho, desconhecem suas próprias raízes históricas e culpam os professores pela falta de incentivo cultural em sala de aula.
Em entrevista com os representantes das principais escolas do bairro, Cristo é Vida, Oswaldo Cruz e Hercília Moreira, se observa que muitos educadores seguem apenas o cronograma oferecido pela Secretária de Educação e Cultura (SMEC). “A nossa escola não costuma trabalhar com a cultura do bairro, mas nem por isso deixamos de cumprir o calendário. Nossos professores abordam em sala as principais datas comemorativas do ano, como o dia do índio e o folclore. A prefeitura até cede o material se quisermos trabalhar com tema”, argumenta a secretária da Escola Cristo é Vida, Regina Celi.
Questionada sobre a exposição de temas culturais em sala de aula relacionadas ao bairro, a secretária diz: “Infelizmente a realidade de nossas crianças é diferente. Respeitamos a tradição, a cultura, a festa, as religiões, mas devido à escola ser apoiada por padres, evitamos falar de certos temas que venham a ser contra a doutrina católica; como por exemplo, a festa de Iemanjá, uma festa pagã e profana”.
Há três anos a entidade se transformou em escola, com ajuda da prefeitura municipal de Salvador, atendendo crianças de baixa renda, do pré-escolar à 2ª série. Junto à escola, situada na Chapada do Rio Vermelho, funciona a Fundação Dom Avelar, programa realizado pelo projeto Cidade Mãe e Ágata Esmeralda, surgida na Itália com o objetivo de integrar crianças e adolescentes marginalizados no âmbito social onde vivem. Cursos gratuitos são oferecidos pela entidade e acompanhamento de assistentes sociais.
Aluno da escola Cristo é Vida, David Soares, 10, conta: “De vez em quando a gente fala do bairro; mas só de vez em quando. Eu só sei mesmo é que ele se chama Rio Vermelho, a história a professora nunca me falou”. Entrevistada sobre o método educacional utilizado para se falar da região em sala de aula, a vice-diretora da Escola Oswaldo Cruz, Ana Carla Pereira de Souza, procurou argumentos dentro da programação da SMEC, que respondessem a questão em evidência, abordando somente o tema da Iª Unidade “Identidade”, difundido por todas as escolas municipais da cidade do Salvador, onde os alunos são incentivados somente neste período a terem uma noção do espaço físico onde vivem. 
Inconformada com tal argumentação, Josevalda Cerqueira, mãe de duas alunas da 1ª série da instituição afirma: “Essa escola fala pouco do bairro, poderia falar mais. As crianças me perguntam sobre a Colônia de Pescadores, mas eu não sei responder. Os professores poderiam passar pesquisas, assim elas aprenderiam mais”.
Preocupados em resgatar a memória histórica do rio Vermelho, alguns professores buscaram alternativas fora do plano pedagógico do ano letivo, para integrar a comunidade a escola, implantando atividades expositivas para os seus alunos.
Segundo Rita Estrela, Diretora da Escola Hercília Moreira, “há muito que se fazer para inserir a comunidade em sala de aula, mas procuramos trabalhar o tema “bairro” com o máximo de dedicação. Lógico que somos obrigados a seguir e cumprir o calendário e orientações da SMEC, mas nem por isso deixamos de adaptar os temas à realidade do alunado, até porque a maioria deles são filhos de pescadores. Por isso sempre no 1º semestre vamos visitar alguns pontos turísticos, em parceria com os moradores daqui, saímos do espaço escola para o espaço de socialização. Ano passado criamos um livrinho sobre a História do Rio Vermelho”.
“Iniciativas como estas elevam o padrão das escolas públicas no estado da Bahia e até mesmo no Brasil”, afirma Guilhermino Antunes de Santana, morador antigo e pescador da localidade.
Atendendo as regiões da Orla, incluindo o bairro do Rio Vermelho, funciona o Conselho Regional de Educação (CRE-Orla), órgão ligado a SMEC, voltado diretamente para as necessidades das escolas municipais e os seus alunos. Questionada sobre seu principal objetivo, sua representante, a secretária Indira Moraes Santana argumenta: “Trabalhamos como um escritório público, voltado diretamente para as escolas e alunos. Queremos garantir uma escola pública de qualidade, visando o compromisso com a ética, para no futuro formarmos futuros cidadãos inclusos na sociedade. Temos uma preocupação com a questão do bairro na escola. As crianças precisam conhecer a história e cultura, por isso qualificamos nossos professores oferecendo cursos que venham a contribuir com esta proposta, a exemplo do Seminário Latino Americano de Educação Infantil. A escola e a comunidade têm um papel importantíssimo na vida do ser humano”.
Biblioteca
Reinaugurada em 2004 com a ajuda de pescadores, a Biblioteca Juracy Magalhães Júnior, possui mais de 20 mil livros, entre eles relatos dos próprios moradores sobre o Rio Vermelho. De acordo com Antônio Souza, funcionário do local, “dificilmente alunos procuram assuntos relacionados ao bairro. A busca maior é por história geral, o próprio Brasil, o que é uma pena, já que possuímos um valioso acervo sobre o bairro. Os professores deveriam incentivar as crianças desde o começo da escola a freqüentarem a biblioteca, tendo como atrativo o lugar onde eles vivem. Isso certamente despertaria a curiosidade e por conseqüência abririam portas para o conhecimento”.
(junho de 2006)
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IEMANJÁ
No ritmo melodioso das ondas mágicas,
Ouço o belo canto encantado de Iemanjá.
Canto mágico que me encanta a te louvar,
Como deusa de todos os encantos do mar.
Mãe misteriosa de luz de todos os orixás,
Protetora de todos que vivem das águas.
E senhora da compaixão de todos orixás,
Da compaixão que afagam nossas magoas.
De suas mãos saem as riquezas das águas,
Que em breve irão socorrer a humanidade.
Com tantos nomes! Es a rainha das águas!
Rainha de graça e beleza, de mulher sem igual,
Dos teus fartos belos seios, vieram todas as águas,
Como essência para a existência da vida sem igual.