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Festa sincrética

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por Luciana Silva                                                            

Quem passa pela Rua Guedes Cabral, no Rio Vermelho, depara-se com uma das mais famosas paróquias da cidade do Salvador: a igreja de Santana. Esta paróquia sempre se destacou pelo sincretismo religioso com os ritos africanos e pela festa de Santana, que ocorre no dia 26 de julho, no Rio Vermelho.

Localizada no largo mais badalado do bairro, ao lado da colônia de pesca e da casa de Iemanjá, possui arquitetura simples e recebe os fiéis de todos os lugares durante as missas realizadas pelo padre Ângelo Magno Carmo Lopes. A igreja matriz foi construída na segunda metade do século XIX. Com a grande aglomeração dos fiéis, foi necessário construir uma nova sede, a poucos metros de distância, na região do antigo forte do Rio Vermelho, que havia sido demolido pela prefeitura. Na nova sede, as pessoas que freqüentam as missas são de Salvador. Janete Góes Julião, 46, trabalha voluntariamente na paróquia há 10 anos e afirmou que “a maioria dos fiéis são brasileiros, os paroquianos do bairro, os turistas vêm, mas é pouco”.

A igreja proporciona a seus adeptos a festa de Santana, que surgiu em 1823, quando os pescadores da colônia do Rio Vermelho passaram a venerar a imagem de uma mulher idosa, vista no mar, que acreditavam ser Santana. A partir daí começaram a reverenciá-la no último domingo antes do carnaval. A população do bairro, principalmente os pescadores, se arrumava com suas melhores roupas e partia em romaria nas suas jangadas – na procissão terrestre saiam pelas ruas do bairro.

Atualmente, comemorada no dia 26 de julho, tem uma trajetória bastante curiosa e em decorrência da festa de Iemanjá foi perdendo espaço. O padre Ângelo, 53, é contra a festa de Iemanjá e se defendeu dizendo que ele não participa por considerá-la uma festa pagã. “Eu não participo, fecho a igreja com três dias na festa de Iemanjá. O que eles cultuam não é da religião católica e sim do candomblé”, ainda completou dizendo que Iemanjá era invenção e que se existe alguma rainha das águas é Nossa Senhora.

Antes a festa de Santana era considerada como prévia carnavalesca. Faziam parte dessa celebração: novena, procissão, lavagem das escadarias da igreja, leilões, quermesses, concursos de rainhas e princesas, bailes particulares, fogos de artifícios, batalhas de confete, grupo de mascarados e até lança perfume.

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Essas programações consideradas como religiosas e profanas, juntamente com a presença dos cultos africanos, acabaram gerando conflitos entre os pescadores e os padres católicos. Hoje, existe um respeito muito grande entre a igreja e os pescadores. “Não existe conflito nenhum. O padre Ângelo é uma boa pessoa, um bom padre, a gente respeitamos muito ele porque ele não interfere em nada e se preocupa com a gente. Ele não participa da nossa festa, mas a gente participamos da dele. Eu entendo ele e respeito”, disse Gilson Alves dos Santos, 67, que há 40 anos faz parte da colônia dos pescadores do Rio Vermelho.

O padre Ângelo destacou que é contra o sincretismo religioso e até citou padre Pinto por não seguir os preceitos impostos pela igreja. “Se houver sincretismo é por parte deles. São eles que fazem essa mistura, cultuando alguns de nossos santos como as divindades deles. O padre Pinto, por exemplo, errou e agora está pagando por causa de suas atitudes indevidas”.

Com o fim dos 10 dias de festas no início do ano, as homenagens a Santana se resumem apenas ao dia 26 de julho e às novenas e missas realizadas na paróquia. Apesar de tanta polêmica, das dificuldades encontradas e da força que a festa foi perdendo, é provável que no próximo 26 de julho a festa de Santana sobreviva.

(junho de 2006)

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