Entre os transeuntes e o trânsito da Avenida Oceânica no Rio Vermelho, o toque dos atabaques, o som dos berimbaus e os cantos já se fazem levemente presentes. O local de origem dessa agitação é o último andar do prédio dois na Rua Alto da Sereia, um beco com uma grande escadaria razoavelmente íngreme. Nele está a sede soteropolitana do Instituto Nzinga de Capoeira Angola. Murais informativos, mapas do continente africano, anúncios de causas do povo negro baiano, cabaças e panos com desenhos africanos estendidos, convidam o visitante a mergulhar de cabeça na cultura de seu povo, através da capoeira.
O grupo Nzinga foi fundado em 1995, em São Paulo, por Paulo Roberto Guimarães Barreto, Rosângela Costa Araújo e Paula Cristina Barreto, mais conhecidos como Mestre Poloca, Mestre Janja e Mestre Paulinha, respectivamente. Instalou-se em Salvador em 2002 sob a coordenação dos mestres supracitados e segue a linha do falecido Mestre Pastinha, que está situado entre os Mestres Benedito e João Grande na árvore genealógica da prática Angolana.O instituto coloca em primeiro plano, além do ensino da capoeira, a transmissão da cultura africana, o combate contra todas as formas de racismo e a educação sem autoritarismo, dando um valor singular a cada praticante. O intuito é diferenciar-se da capoeira regional do Mestre Bimba, introduzir na capoeira um discurso político-social e afastar-se da violência a qual era associada por muitos. Mais especificamente, a capoeira de Angola é um quase-sinônimo da cultura dos negros Bantos.
Mestre Janja, na sua dissertação de Mestrado “Tradição e educação entre os angoleiros bahianos”, afirma sobre a Capoeira de Angola: “A Capoeira praticada nas senzalas, ruas e quilombos foi vista como uma ameaça pelos governantes, que assim estabeleceram, em 1821, medidas de repressão à capoeiragem, incluindo castigos físicos e prisão. As medidas policiais contra a Capoeira só deixaram de vigorar a partir da década de 1930, mas isto não significou que fosse plenamente aceita e que seus praticantes tivessem a simpatia da sociedade brasileira”. E continua: “Assim, dois ramos da Capoeira surgiram na década de 1940 e se distinguiram mais efetivamente a partir dos anos 70. Ocorreu, por um lado, a organização da capoeira esportiva (Capoeira Regional) como arte marcial, e, por outro lado, a mobilização de grupos de resistência cultural afro-baiana, que perceberam nos poucos grupos angoleiros a manutenção dos elementos da capoeira trazidos pelos africanos de origem banto”.
Dentro desse panorama, o grupo Nzinga realiza seu trabalho muito próximo do Candomblé, utilizando também três berimbaus, a mesma disposição espacial e rituais semelhantes. Mestre Poloca, 46, afirmou sobre o tema: “A capoeira de Angola é a mãe de todas as outras e vem sendo cada vez mais respeitada, tendo se abastecido muito do candomblé com músicas, letras, entre outras coisas”. A aluna Cristiane Zonzom, 48, salientou o lado mágico da capoeira: “A diferença entre essa capoeira e as outras é o lado lúdico, infantil. Eu venho aqui com os problemas do dia-a-dia e saio de alto astral, alegre. Fiquei viciada na capoeira e nesse ambiente gostoso que ela proporciona”.Os instrumentos usados pelo grupo na roda são o berimbau, com seus três tipos: o Gunga, o Médio e o Viola; o atabaque, de origem afro-brasileira; o caxixi, de influências do povo africano e do indígena; o pandeiro, de origem asiática e o agogô e o reco-reco, ambos de origem africana. Já os cantos, são muitas vezes tirados, como já dito, do candomblé, e tem natureza africana sempre. Em depoimento colhido também no site, o Mestre Pastinha diz: “Não é defeito não saber cantar, mas é defeito, e proibido na bateria, não saber responder em coro ao cantador, que canta um enredo improvisado”.
E esse ambiente alegre se torna ainda mais colorido com a presença de crianças, devido a um trabalho educacional voluntário, através do ensino de práticas de leitura, expressão oral, teatro, reciclagem de objetos e reforço escolar, como uma espécie de auxílio para a escola da comunidade, realizado pelo instituto. Mestre Poloca comentou sobre essas ações: “Quando nós chegamos aqui, fomos falar com a diretora da escola pública Ana Nery, que fica aqui ao lado, pra que os alunos de lá viessem praticar capoeira aqui, além de fazerem essas atividades que disponibilizamos, já que lá não tem espaço pra isso, é uma escola muito pequena e de poucos recursos, não oferece opções de lazer às crianças”.
A aula para essas crianças acontece geralmente aos sábados, numa rodinha onde são colocados em pauta os temas já citados, levando cultura aos futuros cidadãos. Sávio de Souza Junqueira, de 9 anos, aluno e praticante da capoeira do Instituto Nzinga, deu ares infantis à visão sobre ela: “Eu gosto daqui porque aprendo várias músicas e golpes e porque aqui todo mundo joga devagar”. E o pequenino Wandersan Lima, de 8 anos, vai um pouco mais longe: “Capoeira é o esporte mais legal de todos”.
(maio de 2007)
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